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Evangelismo, evangelização e discipulado

Numa frase os verbos expressam a ação, e para compreendê-la bem é preciso examiná-los cuidadosamente. A vontade de Jesus expressa no momento de sua ascensão (Mt 28.19,20) é clara e direta; é uma ordem, uma tarefa, uma incumbência (daí ser chamada de Grande Comissão). Dois verbos se destacam: fazer (discípulos) e ensinar (obedecer tudo que lhes ordenei).

Definindo de modo geral, evangelismo consiste em testificar o evangelho, anunciar as boas-novas, pregar a Palavra. É o kerygma ou proclamação. Há diversas formas de se fazer evangelismo: pessoal (porta a porta, testemunho), de massa (cultos de praça, cruzadas evangelísticas, shows), midiático (CD, DVD, rádio e TV), impressos (livros, revistas, folhetos) e outros. É importante observar que evangelismo é a parte introdutória da Grande Comissão com destaque no texto de Marcos 16.15 (ide e pregai). A pregação é importante, mas não conclui a tarefa. Seria bastante confortável se o dever do cristão terminasse aí. Ele pregaria e caberia exclusivamente ao ouvinte resolver seus problemas consigo mesmo e com Deus (há quem pense que ao pregar já fez sua parte, o resto é com o Espírito Santo).

Fazer discípulos está associado à didaskalia ou ensino. É um processo mais difícil que a pregação. Há maior necessidade de empenho, doação, tempo e acompanhamento. Paulo chamou de “sofrer dores de parto para ver Cristo formado em vocês” (Gl 4.19). Não é possível cumprir a Grande Comissão sem um alto grau de comprometimento com Jesus e sua missão. Ora, aquele que considera o que Jesus fez por si em seu sacrifício vicário há de se esforçar para que a eficácia da cruz se confirme no próximo. Em outras palavras, cada um deve considerar o quanto Jesus sofreu para salvá-lo, a fim de ter motivação suficiente para “sofrer” um pouco para a salvação de outros.

Chamamos de evangelização o pleno cumprimento da Grande Comissão: kerigma e didaskalia, proclamação e discipulado, pregação e ensino. Há de se buscar o desenvolvimento de estratégias eficientes para tornar o evangelho conhecido entre as nações, e estratégias eficientes de formar discípulos autênticos, plantando sementes da igreja de Jesus Cristo, agência do Reino de Deus.

Alguns cristãos têm maior desenvoltura no evangelismo, pois são mais desinibidos, têm poder de argumentação e persuasão. Através das artes, da música, da literatura os mais tímidos também podem proclamar. Através do serviço, do acolhimento, da prática da misericórdia outros revelarão o caráter de Cristo. Outros serão evangelistas no seu local de trabalho ou estudo, ganharão seus parentes e vizinhos através da amizade e simpatia. São facetas distintas, dons e ministérios distribuídos entre os santos para a manifestação do poder de Jesus e glória de Deus.

Todavia é preocupante que poucos cristãos estejam se envolvendo com responsabilidade no discipulado. Por isso algumas igrejas adotaram modelos alternativos, como células, por exemplo, onde os líderes são designados e cobrados pela ação discipuladora. Como benefício inicial o discipulado pode ser melhor sistematizado, todavia eventualmente o estresse tende a esgotar os líderes e gerar dependência nos discípulos.

O ideal seria se os cristãos se vissem como uma comunidade onde todos são simultaneamente discipulados e discipuladores, onde o pastoreio é mútuo, o cuidado é repartido, o aconselhamento é feito pelos espirituais e em amor, a assistência é espontânea e independe de estruturas hierárquicas. Parece ser um desejo utópico, mas foi exatamente isso que Jesus sugeriu (Mc 10.42-45).

Desenvolver uma comunidade evangelizadora é um grande desafio. Tornar esta comunidade evangelizadora numa “congregação de discípulos” é um desafio maior ainda. Como a Grande Comissão não é a grande opção, só nos cabe cumprir a tarefa: aproveitar as oportunidades para evangelizar, discipular sempre.

Pr. José Carlos da Silva
 

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